sexta-feira, 30 de julho de 2010

Rebeldes, rebeldes; negócios a parte

O propósito da vanguarda é sempre estar à frente de seu tempo. O nome vanguarda origina-se no francês e se refere à guarda que vai a frente, aquela que nas batalhas é a primeira a morrer, abrindo caminho para ataques surpresas ou, mesmo, dizimando o máximo possível a resistência inimiga.

A chamada arte vanguardista do século XX também saiu à frente: com seus vasos sanitários, com seus relógios em estado de derretimento, com seu abstratismo. Sofreu alguma resistência, mas passado um tempo, foi absorvida e absolvida, aceita. Imagine a vanguarda do exército de Napoleão chegando a Waterloo sendo recebida com festas e banquetes por parte dos inimigos. O que restaria a vanguarda se fora treinada para combater e minar a força adversária? Do que adiantaria seus argumentos subversivos e inovadores se não houvesse resistência do outro; e ao invés de resistência os “adversários” se sentassem e pedissem à vanguarda que lhes ensinasse sobre si? A vanguarda se frustra diante de sua aceitação. Foi feita para contestar e não para entrar na roda. Ferida no calcanhar da vanguarda é a aceitação.

Na moda não foi diferente. Assim como a infância, a adolescência, e vários dos nossos estados de comportamento, a juventude é um conceito criado para atender demandas da época a que se presta. E foi na década de 1960, que primeiro se falou em moda para jovens. Até então, a moda dos jovens era copiada da moda dos adultos. Havemos de convir que não devia ser nada legal. Então, surgem o jeans, a mini-saia(íconíssimo da revolução da mulher), a camiseta, as jaquetas de couro (seguindo a moda dos militares)... A moda ia seguindo o seu curso de fuga das amarras da sociedade, enviando, assim, a sua vanguarda para as ruas. No começo, eram uns rebeldes, que se apropriavam do jeans e das camisetas fabricados como uniformes para trabalhadores, mas, como tudo o que é sólido vira farinha no multiprocessador da burguesia, a rebeldia virou moda.

Não foi nada desagradável ao capitalismo descobrir que poderia produzir milhares de calças com baixo custo e com super certeza de lucro, uma vez que o jeans havia virado febre. Pode o conservadorismo abrir mão de sua ideologia em função de mais dinheiro? Claro! A vanguarda da moda, a mais prática de todas as vanguardas, visto que ia para a rua e no corpo das pessoas, também via seu intuito de subversão ser engolido pela economia de mercado, que ia se aprontando para oferecer o que era procurado. Mas alguém falou que os vanguardistas ficaram tristes com isso?! O nome Mary Quant (rainha das mini-saias) nunca foi esquecido, bem como Pierre Cardin (que desenhava roupas futuristas) e Saint Laurent (com seus tubinhos à la Mondrian). Como bem berrou Elis Regina “... ta em casa guardado por Deus, contando vil metal...”.

Mesmo aceita e aprovada pela burguesia, a moda sessentista foi bastante transgressora mudando o curso que a mantinha cativa; e aliada à música, rompeu com os paradigmas vigentes de sua época, dando força à juventude para a sua afirmação como tal, um conceito até então teórico. Mesmo aceita, a moda de vanguarda, que não é música de Madonna, fez a burguesia e os rebeldes compartilharem interesses. 

*Imagens: 1ª Mini-saias e Mary Quant no poder. 2º "Mondrian" Day Dress, famosa peça de Yves Saint Laurent. 3º Capacetes ultra furitstas e um tanto psicodélicos (como quase tudo nos 60's) de Pierre Cardin. 

A que vim...


Moda! Meu cérebro talvez dê um giro de 360º toda vez que me deparo com essa palavra perniciosa. O que há em seu conceito; sua atitude; seu poder; sua lógica? Ultimamente a moda tem me cativado; tenho sido fiel a programas de TV, blogs e revistas, contudo, uma coisa me cativa mais do que a moda: as letras. Assim, faço uso de um velho amigo, de todas as horas, para buscar o que me possa esclarecer sobre moda:
sf. [substantivo feminino] 1. Uso, hábito ou estilo geralmente aceito, variável no tempo, e resultante de determinado gosto, meio social, região, etc. 2. Uso passageiro que regula a forma de vestir, etc. 3. Arte e técnica do vestiário.”(Dicionário Aurélio).
Um dicionário não é suficiente para trazer à luz nenhum conceito sobre coisa alguma. Ele nos serve de guia, ou de ponto de partida. Resta-me, então, uma vez que tenho o que a palavra “moda” significa, buscar seu uso; no seu meio cotidiano, na sua manifestação enquanto entidade que vive a nos impulsionar.
Moda não precisa ser um deus, um ditador ou coisa parecida. Na verdade, cada vez mais, percebo que a moda, a despeito do que se propaga, não dita coisa alguma, mas, sim, serve a conceitos, ideais; é a conversão dos desejos e da atitude de quem faz uso dela para a vestimenta. Vestimenta?! Moda deixou de significar só roupas há muito tempo. Se é que algum dia já significou só indumentária.
A moda, como tudo que vem do humano, segue um curso cíclico: de forma a imitar uma espiral. Como Aristóteles já havia dito. A moda, como tudo o que vem do humano, não deixa de servir à repetição, ao passado que a gerou. Mas ela se renova e não se encerra no encontro das duas pontas de um círculo perfeito e acabado. Tal encontro jamais ocorre. Antes, a moda segue seu curso, indefinido e cambaleante, servindo aqui e ali, às tendências, que são os desejos mais íntimos do nosso interior que nem conhecemos. Daí, vem a glória dos estilistas: conhecer os desejos ainda internalizados de uma geração e os lançar numa luxuosa semana de moda. A moda, como uma era, tem seu estado de princípio, seu estado de graça e a sua escatologia; adormece, como um deus não cultuado até que possa acordar numa nova safra além-tempo.
Assim, no meio do giro que faz meu cérebro estou na busca por um chão de onde possa encontrar um norte, contudo, é-me muito mais saboroso achar-me perdido neste furacão de vestidos esvoaçantes, cabeleiras vastas, saltos, alta costura, cores, moldes, tendências, espetáculos... E me jogar nesta passarela pra lá de longa, a fim de me libertar, e a todos os bons que vierem juntos, da tal da Doce Cabanna (com dois n’s) que tanto nos persegue. 
 *Imagem: Tubinho (básico!), em alumínio, do estilista espanhol Paco Rabanne um dos envolvidos na rebelde moda da década de 1960.