segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Cabelo!


Bem, quem escreve sempre escreve sobre si, e minha saga pela passarela não podia manter-se distante de um assunto que tem sido uma polêmica diária para mim. Que nunca gostei de cortar o cabelo, minha família sempre soube, afinal, era movido a ameaças do meu pai e lágrimas minhas, que eu me sentava numa cadeira da barbearia. Já de pequeno, me ardia um sentimento de perda muito forte, talvez já morasse, em mim, um Sansão ou coisa do tipo.
Parecia que ao entrar numa barbearia eu estava sendo conduzido ao templo de um deus pagão que aceitava sacrifícios humanos: cortar o cabelo me era uma morte. Era a anulação de minha identidade, da minha capa, do meu Chapeuzinho Loiro, do meu capuz protetor que me fazia bem. Nunca gostei muito de olhar-me no espelho depois de um corte novo, precisava sempre de três dias para adaptar-me à nova vida a mim imposta com tanta crueldade. Agora desde Dezembro (09), não sofro mais com isso. Cá estão meus cabelos enormes e sem corte. Tratados com massagens, shampoos bacanas e condicionadores. Sinto-me mais eu e mais protegido. Mas cabelos tem sido pauta em quase todos os assuntos dos quais participo. Quando não são uns amigos querendo pranchar os meus cachos para vê-los lisos, são outros amigos e familiares a questionarem-me a data do corte e me fazendo lembrar da mui faminta família do barbeiro.
Dia desses estava assistindo Hair, e nem tinha feito ligação do nome do filme com o significado da palavra “hair” (do inglês, cabelo). Mas Hair também fala de cabelo; e ali, trata-se de ter cabelos grandes e maiores ainda como certa resistência, um jeito de não reverenciar ao modelo instituído e apolíneo da burguesia vigente. Cabelos e pelos eram sinônimo de rebeldia, de sujeira, do que não está cuidado, desleixado. Hippie, porco e fedorento. Piolhos e dreads. Paciência. Cabelo é mais que isso. É expressão, é grito. Cabelo é a força, é a juba do leão... Sansão e Rapunzel.
Cada cultura expressa seu cabelo de uma forma. Vimos a brilhantina, e o nanquim fazendo brotarem costeletas; vimos a palha de aço entre as madeixas para dar volume ao cocuruto; vimos o arrepiar-se rock and roll; vimos a vasta cabeleira tropicália; o Balck Power, vimos uma época em que ter cabelos lisos era feio (boi-lambeu) e, em seguida, era bacana (vide os efeitos do formol em pessoas vivas, ou que se crêem tal); vimos os cabelos mais exóticos nas copas do mundo (e não falo de jogadores estrangeiros); vimos o cabelo almofadinhas nos noticiários; tranças, carecas, tererês, rastafáris, canecalon, pente quente, ferro de passar roupas, garfo quente, gel, tingidos, grisalhos, volumosos...
It's Britney, Bald Bitch!
Cabelo é a coroa da nobreza contida em cada um de nós. Um rei (uma rainha) manda polir sua coroa; nós tomamos conta para que com as madeixas esteja sempre tudo bem e a moldura tem sempre que servir à obra, não a obra à moldura. O artista escolhe a moldura que melhor, a seu ver (valendo-se mais que tudo da subjetividade), revele ou suavize sua obra de arte, seu rosto.
Texto gigante e vou parando por aqui, é mesmo um desabafo de minha parte, ora! Talvez eu corte, mas não quero dar margens a falsas esperanças que o filho do barbeiro possa vir a alimentar de um natal melhor este ano.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Rebeldes, rebeldes; negócios a parte

O propósito da vanguarda é sempre estar à frente de seu tempo. O nome vanguarda origina-se no francês e se refere à guarda que vai a frente, aquela que nas batalhas é a primeira a morrer, abrindo caminho para ataques surpresas ou, mesmo, dizimando o máximo possível a resistência inimiga.

A chamada arte vanguardista do século XX também saiu à frente: com seus vasos sanitários, com seus relógios em estado de derretimento, com seu abstratismo. Sofreu alguma resistência, mas passado um tempo, foi absorvida e absolvida, aceita. Imagine a vanguarda do exército de Napoleão chegando a Waterloo sendo recebida com festas e banquetes por parte dos inimigos. O que restaria a vanguarda se fora treinada para combater e minar a força adversária? Do que adiantaria seus argumentos subversivos e inovadores se não houvesse resistência do outro; e ao invés de resistência os “adversários” se sentassem e pedissem à vanguarda que lhes ensinasse sobre si? A vanguarda se frustra diante de sua aceitação. Foi feita para contestar e não para entrar na roda. Ferida no calcanhar da vanguarda é a aceitação.

Na moda não foi diferente. Assim como a infância, a adolescência, e vários dos nossos estados de comportamento, a juventude é um conceito criado para atender demandas da época a que se presta. E foi na década de 1960, que primeiro se falou em moda para jovens. Até então, a moda dos jovens era copiada da moda dos adultos. Havemos de convir que não devia ser nada legal. Então, surgem o jeans, a mini-saia(íconíssimo da revolução da mulher), a camiseta, as jaquetas de couro (seguindo a moda dos militares)... A moda ia seguindo o seu curso de fuga das amarras da sociedade, enviando, assim, a sua vanguarda para as ruas. No começo, eram uns rebeldes, que se apropriavam do jeans e das camisetas fabricados como uniformes para trabalhadores, mas, como tudo o que é sólido vira farinha no multiprocessador da burguesia, a rebeldia virou moda.

Não foi nada desagradável ao capitalismo descobrir que poderia produzir milhares de calças com baixo custo e com super certeza de lucro, uma vez que o jeans havia virado febre. Pode o conservadorismo abrir mão de sua ideologia em função de mais dinheiro? Claro! A vanguarda da moda, a mais prática de todas as vanguardas, visto que ia para a rua e no corpo das pessoas, também via seu intuito de subversão ser engolido pela economia de mercado, que ia se aprontando para oferecer o que era procurado. Mas alguém falou que os vanguardistas ficaram tristes com isso?! O nome Mary Quant (rainha das mini-saias) nunca foi esquecido, bem como Pierre Cardin (que desenhava roupas futuristas) e Saint Laurent (com seus tubinhos à la Mondrian). Como bem berrou Elis Regina “... ta em casa guardado por Deus, contando vil metal...”.

Mesmo aceita e aprovada pela burguesia, a moda sessentista foi bastante transgressora mudando o curso que a mantinha cativa; e aliada à música, rompeu com os paradigmas vigentes de sua época, dando força à juventude para a sua afirmação como tal, um conceito até então teórico. Mesmo aceita, a moda de vanguarda, que não é música de Madonna, fez a burguesia e os rebeldes compartilharem interesses. 

*Imagens: 1ª Mini-saias e Mary Quant no poder. 2º "Mondrian" Day Dress, famosa peça de Yves Saint Laurent. 3º Capacetes ultra furitstas e um tanto psicodélicos (como quase tudo nos 60's) de Pierre Cardin. 

A que vim...


Moda! Meu cérebro talvez dê um giro de 360º toda vez que me deparo com essa palavra perniciosa. O que há em seu conceito; sua atitude; seu poder; sua lógica? Ultimamente a moda tem me cativado; tenho sido fiel a programas de TV, blogs e revistas, contudo, uma coisa me cativa mais do que a moda: as letras. Assim, faço uso de um velho amigo, de todas as horas, para buscar o que me possa esclarecer sobre moda:
sf. [substantivo feminino] 1. Uso, hábito ou estilo geralmente aceito, variável no tempo, e resultante de determinado gosto, meio social, região, etc. 2. Uso passageiro que regula a forma de vestir, etc. 3. Arte e técnica do vestiário.”(Dicionário Aurélio).
Um dicionário não é suficiente para trazer à luz nenhum conceito sobre coisa alguma. Ele nos serve de guia, ou de ponto de partida. Resta-me, então, uma vez que tenho o que a palavra “moda” significa, buscar seu uso; no seu meio cotidiano, na sua manifestação enquanto entidade que vive a nos impulsionar.
Moda não precisa ser um deus, um ditador ou coisa parecida. Na verdade, cada vez mais, percebo que a moda, a despeito do que se propaga, não dita coisa alguma, mas, sim, serve a conceitos, ideais; é a conversão dos desejos e da atitude de quem faz uso dela para a vestimenta. Vestimenta?! Moda deixou de significar só roupas há muito tempo. Se é que algum dia já significou só indumentária.
A moda, como tudo que vem do humano, segue um curso cíclico: de forma a imitar uma espiral. Como Aristóteles já havia dito. A moda, como tudo o que vem do humano, não deixa de servir à repetição, ao passado que a gerou. Mas ela se renova e não se encerra no encontro das duas pontas de um círculo perfeito e acabado. Tal encontro jamais ocorre. Antes, a moda segue seu curso, indefinido e cambaleante, servindo aqui e ali, às tendências, que são os desejos mais íntimos do nosso interior que nem conhecemos. Daí, vem a glória dos estilistas: conhecer os desejos ainda internalizados de uma geração e os lançar numa luxuosa semana de moda. A moda, como uma era, tem seu estado de princípio, seu estado de graça e a sua escatologia; adormece, como um deus não cultuado até que possa acordar numa nova safra além-tempo.
Assim, no meio do giro que faz meu cérebro estou na busca por um chão de onde possa encontrar um norte, contudo, é-me muito mais saboroso achar-me perdido neste furacão de vestidos esvoaçantes, cabeleiras vastas, saltos, alta costura, cores, moldes, tendências, espetáculos... E me jogar nesta passarela pra lá de longa, a fim de me libertar, e a todos os bons que vierem juntos, da tal da Doce Cabanna (com dois n’s) que tanto nos persegue. 
 *Imagem: Tubinho (básico!), em alumínio, do estilista espanhol Paco Rabanne um dos envolvidos na rebelde moda da década de 1960.