Bem, quem escreve sempre escreve sobre si, e minha saga pela passarela não podia manter-se distante de um assunto que tem sido uma polêmica diária para mim. Que nunca gostei de cortar o cabelo, minha família sempre soube, afinal, era movido a ameaças do meu pai e lágrimas minhas, que eu me sentava numa cadeira da barbearia. Já de pequeno, me ardia um sentimento de perda muito forte, talvez já morasse, em mim, um Sansão ou coisa do tipo. Parecia que ao entrar numa barbearia eu estava sendo conduzido ao templo de um deus pagão que aceitava sacrifícios humanos: cortar o cabelo me era uma morte. Era a anulação de minha identidade, da minha capa, do meu Chapeuzinho Loiro, do meu capuz protetor que me fazia bem. Nunca gostei muito de olhar-me no espelho depois de um corte novo, precisava sempre de três dias para adaptar-me à nova vida a mim imposta com tanta crueldade. Agora desde Dezembro (09), não sofro mais com isso. Cá estão meus cabelos enormes e sem corte. Tratados com massagens, shampoos bacanas e condicionadores. Sinto-me mais eu e mais protegido. Mas cabelos tem sido pauta em quase todos os assuntos dos quais participo. Quando não são uns amigos querendo pranchar os meus cachos para vê-los lisos, são outros amigos e familiares a questionarem-me a data do corte e me fazendo lembrar da mui faminta família do barbeiro.
Dia desses estava assistindo Hair, e nem tinha feito ligação do nome do filme com o significado da palavra “hair” (do inglês, cabelo). Mas Hair também fala de cabelo; e ali, trata-se de ter cabelos grandes e maiores ainda como certa resistência, um jeito de não reverenciar ao modelo instituído e apolíneo da burguesia vigente. Cabelos e pelos eram sinônimo de rebeldia, de sujeira, do que não está cuidado, desleixado. Hippie, porco e fedorento. Piolhos e dreads. Paciência. Cabelo é mais que isso. É expressão, é grito. Cabelo é a força, é a juba do leão... Sansão e Rapunzel.
Cada cultura expressa seu cabelo de uma forma. Vimos a brilhantina, e o nanquim fazendo brotarem costeletas; vimos a palha de aço entre as madeixas para dar volume ao cocuruto; vimos o arrepiar-se rock and roll; vimos a vasta cabeleira tropicália; o Balck Power, vimos uma época em que ter cabelos lisos era feio (boi-lambeu) e, em seguida, era bacana (vide os efeitos do formol em pessoas vivas, ou que se crêem tal); vimos os cabelos mais exóticos nas copas do mundo (e não falo de jogadores estrangeiros); vimos o cabelo almofadinhas nos noticiários; tranças, carecas, tererês, rastafáris, canecalon, pente quente, ferro de passar roupas, garfo quente, gel, tingidos, grisalhos, volumosos...
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| It's Britney, Bald Bitch! |
Cabelo é a coroa da nobreza contida em cada um de nós. Um rei (uma rainha) manda polir sua coroa; nós tomamos conta para que com as madeixas esteja sempre tudo bem e a moldura tem sempre que servir à obra, não a obra à moldura. O artista escolhe a moldura que melhor, a seu ver (valendo-se mais que tudo da subjetividade), revele ou suavize sua obra de arte, seu rosto.
Texto gigante e vou parando por aqui, é mesmo um desabafo de minha parte, ora! Talvez eu corte, mas não quero dar margens a falsas esperanças que o filho do barbeiro possa vir a alimentar de um natal melhor este ano.





